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2º Ciclo de debates: Cultura e Sabotagem

O bom rap contamina, atinge a maioria
Vê isso na periferia, pode crer que vira, vira, vira
Arrisca, petisca, è nós na fita!.” — Cachorro Louco no Freestyle, do rapper Sabotage.

Hoje, depois da reunião geral do OcupaRio, foi realizado o encontro da OcupaTeoria, uma iniciativa associada ao GT Teoria.

Na sequência do sucesso do primeiro ciclo de debates “A Constituição do Comum”, com três encontros no IFCS (“Representação”, “Identidade” e “Propriedade”), ao longo de fevereiro e março, e um quarto geralzão na praça da Cinelândia, em 31 de março; a OcupaTeoria lança agora o ciclo “Cultura e Sabotagem“.

O campo da cultura que nos interessa não pode ser pensado e realizado de modo separado à produção política e econômica. Essa força imanente se articula em culturas de resistência, e se diferencia incessantemente ao sistema vigente das maneiras mais disseminadas, transversais, produtivas e potentes, perturbando-o, subvertendo-o. A cultura como resistência não se resume à diversidade e à diversão. Põe em movimento a invenção de imaginários políticos, deslocamentos identitários, febres arte-ativistas, e novas formas de gerar e se relacionar. A cultura que nos interessa deve se manter sempre em estado de fluidez e recriação, evitando as capturas e as reconfigurações interesseiras. É preciso confabular mundos no limiar do existente, produzir subjetividade e colocar em xeque as estratégias de dominação, controle e exploração. Já existe um movimento de sabotagem social permanente, que emerge das ruas, praças e quebradas, dos teatros de rua e dos desvios criativos, das ocupações do real e do virtual, onde tantas pessoas sonham e constroem elas mesmas um novo corpo de desejos e singularidades.  O movimento Occupy também é uma cultura de resistência, de sabotagem e pirateamento do sistema.

Foram definidos os três momentos do novo ciclo, com a presença de movimentos, coletivos, grupos, estudantes, militantes, curiosos, precários, ativistas, ocupantes e todo tipo de indignado desejante, qualquer um que quiser contribuir e debater:

1. Crise, cultura e captura. Os novos movimentos de produção e organização política através da cultura. Crise do capitalismo, crise cultural. Culturas de resistência ao trabalho e à exploração. Resistir é afirmar diferença e produzir diferente. Pré-agendado para a semana do 7 de maio, local a confirmar.

2. Ética hacker. Os novos movimentos de resistência na internet. Hackeamento como forma ampla de ativismo. Resistir é sabotar a lógica dominante. Pré-agendado para a semana do 21 de maio, local a confirmar.

3. Loucu(ltu)ras: a produção do outro. Saúde mental revolucionária. Teatro de rua, estética da fome, esquizoanálise, alteridade radical e macumba brasileira contra a cabeça do colonizado, dentro e fora do Brasil. Produções de subjetividades. Resistir é se tornar o que não se é. Pré-agendado para a semana do 4 de junho, local a confirmar.

Em breve, mais informações. Para participar da organização, basta entrar em contato no grupo aberto do Facebook “OcupaRio – Teoria”, mediante comentário neste post ou via e-mail em ocupario@gmail.com

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Foto: Wagner de Almeida.

Debate sobre Propriedade, IFCS, 13/03/2012

“Com o desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos operários modernos, que só podem viver se encontrarem trabalho e que só encontram trabalho na medida em que este aumenta o capital. Esses operários, constrangidos a vender-se diariamente, são mercadoria, artigo de comércio como qualquer outro; em consequência, estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado.” (Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels)

Terça 13/mar– 18h – IFCS (sala 107).
Tema: A PROPRIEDADE. “O comum além da propriedade”. Moradia, regularização fundiária, reforma urbana, cultura livre, cultura de resistência, cópia livre, difusão do conhecimento.

DEBATE LIVRE, ABERTO E HORIZONTAL!

Debate sobre Identidade (28/02, IFCS)

“É necessário desconstruir, deslocar e colocar a identidade em suspenso, rejeitando as suas acepções essencialistas, integrais e unificadas, na perspectiva de pensá-la no limite, ou seja, a mesma linha que critica é a que paradoxalmente permite que se continue a pensar com a identidade. E a que vai nos interessar é sempre “provisória”, estratégica e aberta — um campo de possíveis para a produção de si, para a produção da própria vida — e constitui, em sua ressonância política, um dos elementos fundamentais para a compreensão dos incessantes movimentos e permanentes transformações hoje.” (Leonora Corsini)

Terça 28/fev – 18h – IFCS (sala 107).
Tema: A IDENTIDADE. Os pobres constituindo o próprio mundo sem ser erradicados. Lutas de índios, mulheres, negros, LGBT. “Multidão queer”. Antropologia perspectivista e política menor.

DEBATE ABERTO, LIVRE E HORIZONTAL!

Cinco ameaças internas ao Occupy

Por Bruno Cava, trecho extraído do Quadrado dos loucos

(…)

1. Fetiche do Sistema. De fato, o Occupy exprime uma luta contra causas sistêmicas em detrimento de pautas isoladas. Mas não pode ser simplesmente contra o Sistema. Isto é, contra o Complexo Industrial-Militar, o Imperialismo, o Monstro do Capital… ou qualquer outro Moloch indialetizável que impeça chamarmos os inimigos pelo próprio nome. O sistema afinal se constitui da matéria viva das relações sociais, que se desenvolvem em vários planos, macro e micro. As lutas antissistêmicas (sempre no plural) só podem vingar com a multiplicação e a articulação de muitas pautas e frentes que, coordenadas com inteligência, porventura ganhem massa crítica para a mudança global. Essa coordenação prescinde de significado-mestre, de uma ideologia que amarre as lutas nalguma dimensão primária: a economia, a cultura, os direitos humanos, o meio-ambiente. Sucede um paralelismo empoderador, um comum produtivo materializado por lutas por renda, voz política, direitos civis, minoritárias, por sabotagens e reapropriações, por vários focos em coexistência e contágio. Em determinadas situações, algumas pessoas acham que a pauta deve ser A ou B ou C, e ficam disputando sobre prioridades sem perceber como, frequentemente, a pauta potente só pode ser A e B e C, um ABC híbrido.

2. Anti-política. Muitas vezes, as manifestações das acampadas e Ocupas se colocam como apartidárias (“não quero saber de partido”) ou suprapartidárias (“toleramos qualquer partido, mas estamos acima disso”). Não se filiar a partido e não fazer militância partidária e atacar a forma-partido e anular o voto, nada disso implica enfiar todas as forças partidárias no mesmo saco. Empobrece a análise de conjuntura. É comum movimentos bastante partidários se apresentarem como apartidários e sem ideologia. No Brasil, a pauta anticorrupção funciona desse jeito da UDN e Carlos Lacerda até o movimento Cansei e a revista Veja. Por mais que a máquina representativa consista num inimigo a desconstruir-se pelas lutas antissistêmicas, é preciso reconhecer que partidos, mandatários e governos podem agir de muitas formas, podem ser reformistas, conservadores ou simplesmente reacionários (basta ver Pinheirinho). Uma boa estratégia não dispensa atravessar esferas mais institucionalizadas, buscando pontos de acoplamento e contatos esporádicos e pode ser transpartidária.

3. Vanguardismo. A composição das acampadas européias, do Occupy norte-americano e das Ocupas brasileiras é parecida. Um contingente heterogêneo de jovens de 20-30 anos, desempregados, precários, proletarizados, alguns militantes mais antigos, anarquistas, comunistas, social-democratas, socialistas, muitos universitários, secundaristas, alguns professores, um punhado de profissionais liberais, curiosos de toda espécie, gente inadaptada, punks, neo-hippies e também, num segundo momento, uma enxurrada de gente em situação de rua, sob condição mental tensa e usuários de drogas ilícitas de rua. Esse conjunto ou parte dele não pode se ver como vanguarda da revolução. Como o front das lutas sociais, superior e mais avançado que outros grupos organizados. A comunalização do espaço e a sua tomada pelos fluxos urbanos exprimem, sim, força transformadora. Porém, ainda assim, não se imagine vá formar comitês revolucionários para dar a linha. Mesmo porque a revolução não é desse jeito: um dois três e já. No Brasil, não se pode perder de vista a perspectiva dos pobres, esses que já constituem outro mundo na precariedade, formulam discursos, culturas e poéticas de resistência, produzem, desejam e sabem como ninguém como chamar os inimigos pelo próprio nome. Sem romantismos, pobreza não é só privação e sofrimento, mas potência.

Na feliz síntese de Hugo Albuquerque, no Descurvo: “A favela é o locus definitivo de resistência daqueles que foram largados para morrer ao relento, é processo de luta, portanto, sua própria existência – e sua re-existência – é positividade pura. O antropofágico Pinheirinho, mais ainda. Derrota é a resignação, é sentar-se e aceitar morrer, nada disso aconteceu.

4. Populismo anti-financeiro. O Occupy disparou em Wall Street. Isto não significa que tome por alvo primário o capitalismo financeiro e não o capitalismo como um todo. Quando alguns discursos separam economia real de especulação financista, parece que estão absolvendo a economia real. Como se não houvesse patrões, exploração do trabalho, precarização das pessoas e danos socioambientais causados pela dita “economia real”. Essa culpabilização da ganância e dos banqueiros rapidamente capturada pelas ondas de resgate de valores, da moral do bom trabalhador, do bom patrão e do bom capitalismo. Tradicionalistas puros como as paisagens de John Ford contra os yuppies e magnatas decadentes de Nova Iorque. Nos EUA, essa vibe conduz ao Tea Party, na releitura da história dos EUA como a progressiva contaminação da mensagem originária dos founding fathers pelos grandes bancos e investidores. Pior, nessa simplificação antifinanceira habita certo antissemitismo, tanto na velha acusação da conspiração judaica (Plano Cohen, Dreyfus, nazismo), quanto na rápida sinonímia entre banqueiros e judeus. Kill the bank vira kill the jew. É preciso criticar a financeirização da vida, mas não como perversão do bom capitalismo liberal, mas como modo de regulação da produção capitalista. O Occupy se propõe a construção de um novo mundo, jamais o regresso nostálgico ao velho.

5. Somos todos Um. O fetiche da comunhão universal, da Gemeinschaft. Significa recusar a divisão social como horizonte da organização e mobilização. Essa divisão de classe tão bem marcada pelo slogan dos 99% contra o 1%. Em vez disso, os unitaristas assumem que o Occupy é uma frente para os 100%, que todos podem se beneficiar e fazer parte. Esse universalismo moraliza as discussões e questões políticas, em nome da humanidade do homem, do bom selvagem maculado pela civilização capitalista. E despotencializa na medida em que impede de enxergar, logo, de combater as divisões, os cercamentos, as ilhas de confortos e as opressões violentas, os mecanismos da representação, enfim, toda a economia política autorreplicante que forja a escassez e organiza a falta, concentrando renda e propriedade. Essa vontade de comunhão não só termina por edulcorar as lutas sociais, como está bem afinada à compreensão de política da classe média liberal, para quem basta a conversa, a disposição ao diálogo e o discernimento para, no tempo certo, se chegar a consenso sobre praticamente tudo.

E está atrelado a certa terapeutização do movimento social. Onde afetos e sentimentos, melodramas, delicadezas e chororôs se sobrepõem à necessidade de enfrentamento e dissenso, — própria de qualquer ação política transformadora. Essa seria uma política afetiva mais adequada para o facebook e a televisão, onde o mundo se passa em família num processo de privatização do público. Certamente não para a contingência áspera das lutas reais, na conjunção paradoxal de entusiasmo e melancolia, ternura e brutalidade, que acompanha a militância.

Outra frente do “somos todos um” se dá com o digitalismo, que é a teoria e prática das redes levada à ideologia. A percepção de que não há dois lados quando se trata da difusão da informação (no rivals!), que o desenvolvimento das redes pode, por si mesmo, resolver os conflitos, problemas e dilemas sociais. A  sociedade estaria evoluindo em direção à democracia internética dos peers to peers. Uma nova humanidade se descortina, conectada e quântica. Nega-se o antagonismo como primado político, bem como quaisquer divisões formuladas em termos de esquerda e direita. Contornam-se as assimetrias e parasitismos por dentro da web 2.0, povoada de consultores e empresários malandros disfarçados de commons criativos. Assim, a democracia se resolve num algoritmo importado do software para as instituições políticas, num antropológico culto ao código. É o bom selvagem dos hypes criativos e das redes horizontais: no politics please, networks only. A comunhão universal reaparece como mais uma utopia tecnológica, como, outrora, pregavam os profetas das ferrovias e eletricidade (século 19) e os do rádio e televisão (século 20).

Portanto, o slogan 99% contra 1% não poderia ser mais oportuno. Destaca como não existe a Sociedade ou a Humanidade, esse bloco moralmente homogêneo que mereceria que todos nós nos juntássemos e, num consenso irrestrito, passássemos a defender para o bem de todos, sem exceção. Como dizia Mao, o Um tem que se fazer Dois, uma injunção fundamental que precisa ser repetida incansavelmente nas dinâmicas no movimento Occupy.

A lei do comum: vírus mutante das redes

Por Ugo Matei | Traduzido no IHU Online (por Moisés Sbardelotto)

Um aspecto problemático para quem considera a Internet como o paradigma do bem comum global deve-se ao fato de que, por seu intermédio, afirmou-se ainda mais profundamente a hegemonia do modelo norte-americano.

Essa hegemonia não preocupa como problema de língua. Embora o inglês domine a Internet, o pluralismo linguístico da Rede está hoje debaixo dos olhos de todos. Nem preocupa como problema cultural, que deriva do individualismo e da competitividade extrema que caracterizam desde sempre a ideologia norte-americana, colocando-a tradicionalmente como antagonista de tudo o que é comum (a raiz de communism e commons são as mesmas).

O verdadeiro problema dessa prática hegemônica está na governança da da Internet que se apresenta como profundamente antitética com relação àquele modelo de “acesso” que deveria caracterizar o governo dos bens comuns.

Apesar dessas cautelas, não podemos nos eximir, ao percorrer os primeiros passos de um caminho voltado à elaboração de estruturas jurídicas novas para o governo dos bens comuns, de abordar os paralelos entre o mundo da Rede, que poderíamos descrever como um “novo mundo” virtual, “descoberto” quase exatamente meio milênio depois da “descoberta” da América.

Profundas foram as desordens produzidas pelas viagens de Colombo, até o ponto em que as imensas possibilidades de saques que derivaram delas produziram a acumulação originária e o nascimento da modernidade. Hoje, é justamente a Internet que se apresenta como o fator desencadeador da transformação cognitiva do capitalismo global, já que é forte a tentação de observar um recurso histórico.

Analogias desviantes

Porém, é preciso ter cautela ao traçar comparações fascinantes. A questão da traduzibilidade institucional do mundo do material tangível ao do imaterial (e vice-versa) não é, de fato, banal.

Para resolvê-la, os juristas deram vida a um âmbito disciplinar problemático autônomo, conhecido como direito da propriedade intelectual (às vezes como direito industrial), frequentado por defensores diferentes daqueles que se deparam com os problemas da propriedade tangível, particularmente da fundiária.

Com efeito, além dos sugestivos paralelos teóricos, para os quais tanto a propriedade privada das ideias quanto a de um campo seriam caracterizadas pelos mesmos aspectos de “exclusão” de quem não é autorizado pelo titular respectivamente a acessá-los ou a deles fazer uso, as analogias parecem se deter em um nível de abstração inadequado à prática do direito.

Embora também em âmbito fundiário o processo de mercantilização obteve os seus efeitos, a terra continuará sendo um recurso estruturalmente limitado, não reproduzível e tendencialmente único. Esse aspecto fundamental não é verdade para as marcas, patentes ou direitos autorais, os três âmbitos que entram novamente na noção de propriedade intelectual.

Diante de recursos que, in natura, não são limitados (e também no caso daqueles que, como a água, se reproduzem ciclicamente), o direito de propriedade privada desempenha a função de torná-los artificialmente escassos (a fim de deles tirar proveito).

Para aqueles são, ao contrário, limitados e já escassos, a propriedade privada, regulando o acesso a eles, poderia limitar ainda mais o seu consumo, pelo menos ficando dentro do âmbito do ensinamento (muito pouco convincente) da tragédia dos comuns.

E não só. Se é verdade que sempre são necessárias delimitações para fazer nascer um mercado, as necessárias para a informação e o conhecimento (recursos estruturalmente ilimitados) devem ser particularmente pervasivas.

De fato, o potencial adquirente de uma informação dificilmente poderá saber o valor que ela terá para ele sem antes conhecê-la. Obviamente, o potencial vendedor não estará disposto a fazer conhecer a informação antes de vendê-la, porque isso equivaleria a presenteá-la.

Daqui os problemas muito particulares que surgem a partir da utilização da lógica da propriedade privada em matéria de informação e a particular virulência que os grandes latifundiários intelectuais (gravadoras e editoras, grandes empresas farmacêuticas, proprietários dos grandes logos) utilizam para defender seus próprios cercados.

Esses problemas, na realidade, derivam do fato de que informações e conhecimento crescem quantitativa e qualitativamente com a partilha (porque têm natureza de bens comuns relacionais), mas a partilha não gera lucros (basta considerar a Wikipédia, que está na miséria).

Justamente em matéria de propriedade intelectual, reproduz-se assim, não por acaso de modo particularmente visível na presente fase do capitalismo cognitivo, aquele laço indissolúvel entre propriedade privada e aparelhos repressivos do Estado (e hoje também da globalização, pense-se nos acordos Trips da Organização Mundial do Comércio), que se sempre é acompanhada pelos “enclosures”.

Ideologia da repressão

Essas observações, que saltam aos olhos contanto que se olhe para as coisas colocando no centro a sua natureza fenomenológica (terra, conhecimento) e não o seu regime jurídico (propriedade privada, patente), são ofuscadas pelos ingentes investimentos que os grandes latifundiários intelectuais fazem na construção de aparelhos ideológicos que lhes são favoráveis, já que, em uma sociedade que compartilha e coloca em comum seus próprios conhecimentos – reconhecendo que estes são sempre o produto de um determinado contexto social –, copiar é um comportamento totalmente natural.

Para desencorajar esses comportamentos, são necessários aparatos repressivos que utilizem também a ideologia como instrumento de inibição. Aparatos que visem a destruir o comum em favor do privado.

Assim, nas universidades dos Estados Unidos, as tarefas escolares são avaliadas comparativamente em uma “curva” em que apenas alguns podem receber um voto alto, criando um mecanismo de “mors tua vita mea” que destrói a cooperação por meio da competição: se faço com que o meu amigo copie, prejudico a mim mesmo. Da mesma forma, as professoras buscam convencer as meninas mais inteligentes de que “não é justo” ajudar os meninos menos inteligentes, incentivando nelas comportamentos de monstrinhos egoístas (com a consequências de que, depois, excluindo, elas são excluídas).

Do mesmo modo, os muitos cultores-propagadores da propriedade intelectual, reunidos junto aos departamentos ricamente financiados pelas corporações latifundistas intelectuais, dirão que a propriedade intelectual “estimula a inovação e a criatividade”, utilizando exatamente a mesma retórica que os fisiocratas (século XVIII) usavam para celebrar as delimitações, ou seja, que sem propriedade privada não há incentivo ao cultivo e ao trabalho.

Não é essa a sede para se deter sobre a discutibilidade histórica dessas afirmações diante do uso comum da terra. Ao contrário, aqui é preciso enfatizar o resultado completamente contrafactual dessas afirmações no caso de recursos como o conhecimento que não são escassos, mas têm, vice-versa, natureza coletiva e relacional. Privatizar a informação limita, de fato, a sua difusão, e limitar a sua difusão só pode tornar mais difícil sua posterior inovação.

Deveria, portanto, ser evidente que o governo mais coerente com a fenomenologia dos bens comuns deve se fundar em instituições capazes de envolver aqueles que estão desinteressados com relação ao acúmulo de propriedade privada e de poder político, mas que, ao contrário, são gratificados justamente pelo cuidado do comum.

Instituições cooperativas, fundações, associações, consórcios entre entidades locais, comitês, enfim, grupos que deem vida a autênticas dinâmicas democráticas mais ou menos informais e conflituais, isentas de fins lucrativos constituem as organizações institucionais mais adaptados para governar os bens comuns.

Em âmbitos semelhantes, a criatividade floresce na partilha dos problemas sociais e não se transforma em um mero exercício narcísico do indivíduo.

Individualistas e narcisistas

Tudo isso coloca a Internet, o grande common global, que muitos indicam como o modelo para a gestão dos bens comuns, em uma luz tétrica, a meu ver. A Rede, longe de unir, na realidade me parece que divide, individualiza e ilude, solicitando falsas comunidades e um verdadeiro narcisismo.

Hoje, mandamo-nos e-mails de um escritório ao outro, e a comunicação decai e se empobrece. As cafeterias dos câmpus norte-americanos estão lotados de estudantes, cada um com o seu próprio computador, que não se veem e não se falam, mas que estão conectados via Facebook, talvez com alguém do outro lado do mundo ou em uma cafeteria pouco distante.

A política, porém, é “fisicidade”, se quiser ter qualquer chance de emancipação. E os bens comuns podem ser defendidos e governados verdadeiramente apenas com a fisicidade de um movimento social disposto a lutar longa e generosamente para retomar seus próprios espaços.

Jamais será um único dia de manifestação nas ruas convocado via Facebook que irá deter uma guerra, caçar um tirano ou esconjurar um saque de bens comuns.

Ugo Mattei, cátedra Alfred e Hanna Fromm de Direito Internacional e Comparativo da Universidade da Califórnia e professor de Direito do Hastings College of the Law, também na Califórnia, e da Universidade de Turim, na Itália.

Como interpretar o Occupy, por George Schulman

Por George Schulman | Fonte: excerto traduzido de Possible Futures

(…) Como interpretamos o movimento Occupy? temos realmente uma perspectiva nova ou luminosa, para oferecer a ativistas e cidadãos? Acadêmicos parecem muito com os jornalistas, com os quais também temos compartilhado condescendentemente uma ansiedade, pelo menos na medida em que nossos comentários em blogues, postagens e jornais também se esforçar para encaixar o movimento Occupy em algum esquema de análise favorito, que assim tentamos comprovar como válido. Para alguns comentadores acadêmicos, o Occupy é uma insurgência anticapitalista que marca o renascimento da luta de classe depois de anos de predomínio do neoliberalismo. Para outros, é um movimento populista com o potencial de escapar — ou repetir — as limitações e falhas dos movimentos antecedentes. Para alguns, é um movimento social cujo horizonte consiste em culpabilizar e responsabilizar as elites e os estados. Para outros, é a reaparição de uma democracia fugidia, que episodicamente projeta a res publica como possibilidade de encarnar numa ação direta coordenada. Para alguns, marca o poder geracional da “natalidade” na política. Para outros, é a “multidão”, nem tanto protestando pela falha da representação, quanto rejeitando a representação como forma de política, e evidenciando em vez disso a potência do “virtual”, que assume uma forma contingente como linha de fuga, embora incipiente. Eu não quero sugerir com isso que essas posições sejam tão separadas entre si, ou uma-por-uma identificada exatamente com figuras e teóricos específicos, mas que, nossas interpretações tendem, de fato, a repetir e advogar teorias que já estão na conversação acadêmica antes do Occupy. Deveria qualquer esforço de compreender o Occupy tentar confirmar algo em que nós já queríamos acreditar?

Acadêmicos aclamados em muitos casos simplesmente, ou até simplisticamente, “capturam” o evento como evidência de uma teoria que eles já há muito desenvolvem; em alguns casos, nossos colegas falam do Occupy em termos que contradizem o que previamente eles estavam sustentando — digamos, sobre o controle total da racionalidade neoliberal e a evisceração de linguagens alternativas — mas a contradição não é em si mesma reconhecida e analisada por si só. Eu não li um autor sequer confessando a sua perplexidade, porque esse evento perturbou o que ela ou ele tinham assumido a respeito da natureza da hegemonia neoliberal, ou sobre a possibilidade, os pressupostos, e a forma de uma política confrontacional.

Não me inteprete mal, eu vejo valor político e teórico real nos vários esquemas; suas considerações iluminam aspectos e potencialidades importantes do Occupy. Eu tenho a tendência de sentir-me um agnóstico e um pluralista, resistindo a “escolher” uma ética, e em vez disso me preocupando que o evento está desaparecendo sob as várias (e por vezes contraditórias) interpretações. Lembro a mim mesmo que um arranjo polivalente, cacofônico e fluido — deveríamos dizer movimento, movimento constituinte, evento? — irá necessariamente, felizmente, eludir a nossa apreensão, e ainda assim que existe nele um grande valor em tentar representar, senão capturar o seu significado. Mas na contradição entre a história e as categorias que desenvolvermos, e onde o Occupy inexoravelmente coloca desafios para o que dizemos que a política significa e faz, a nossa prosa sinaliza uma ansiedade epistemológica, que afirmamos somente como teoria, mas desconsideramos como prática. Porque nós não estamos realmente certos sobre o tipo de objeto diante de nós, e que tipo de história contar a seu respeito, e o que poderia contar como evidência para resolver a ambiguidade. O Occupy deve ser uma oportunidade para explorar, não somente confirmar, os nossos axiomas teoréticos e visões estabelecidas da política ou da modernidade tardia, do estado, capitalismo e cidadania, da ação política, criatividade cultural e mudança social.

George Schulman é professor de teoria política em Nova Iorque, e participa do movimento Occupy.

Nos EUA, Occupy é a nova esquerda

Por Carlos Alberto Jr. | Fonte: OperaMundi

Entrevista com Kalle Lasn, editor da Adbusters, revista responsável pelo chamado público que originou o Occupy Wall Street.

Como surgiu a ideia do Occupy Wall Street?
Quando começou a acontecer a mudança de regime na Tunísia, um momento muito excitante para o ativismo em todo o mundo e especialmente para nós, que vínhamos pedindo por esse tipo de revolução há 20 anos. Depois houve no Egito uma mudança de um regime duro instigada por jovens a partir do uso das mídias sociais e que levou as pessoas às ruas para exigir mudanças. Tudo isso nos fez pensar que nos Estados Unidos também há um tipo de regime. Não é como o do Egito, mas ainda assim é um regime que tem o poder, em que as megacorporações tem o poder de controlar Washington, o coração da democracia americana, e Wall Street, que tem o poder de controlar o destino econômico da América. Muitos jovens nos EUA sentem que todos os aspectos de suas vidas, como o tipo de sapato que compram, a música que escutam, ou a comida que comem, são de alguma forma controladas por poucas e poderosas megacorporações. Foi assim que começamos: precisamos de uma mudança de regime suave na América e como podemos realizá-la.

O que aconteceu depois de criado o slogan “Occupy Wall Street”?
O melhor a fazer era não tentar algo em Washington, mas sim em Nova York, e convocar as pessoas para ocupar o ícone do capitalismo global em Wall Street. Foi uma ideia muito poderosa naquele momento, quando muita gente odiava Wall Street pelo que aconteceu em 2008. Uma vez decidido que queríamos ocupar Wall Street, criamos um pôster, com a hashtag #occupywallstreet e assim que lançamos o feed no twitter as coisas começaram a ficar loucas. Passamos a divulgar os briefings táticos, enviando mensagens para as 90 mil pessoas que integram nossa rede global de ativistas e, aleluia, a ideia ganhou vida própria e agora estamos montados em um tigre.

O senhor se surpreendeu com a força do movimento?
Sabíamos que em Nova York seria uma grande explosão, um big bang. As pessoas estavam se organizando e bastante excitadas. O movimento chegou a Chicago e depois a Los Angeles, começou a cruzar fronteiras aqui no Canadá e, em meados de outubro, de repente havia mais de mil ocupações em todo o mundo. Nós apenas ficamos boquiabertos assistindo a tudo isso na Al Jazeera.

O senhor acompanha o avanço do movimento por outras cidades e países?
Sim, mantemos contato próximo com o máximo de pessoas possível. É como montar um tigre e é difícil monitorar todos eles, mas estamos em contato com as pessoas que organizaram as coisas originalmente no Zuccotti Park, com gente na Espanha, com ativistas em Londres e conhecemos muitos anarquistas na Grécia e pessoas de esquerda na Itália. Temos essa grande rede de contatos e as pessoas estão nos mandando informações o tempo todo de uma maneira muito efetiva.

O senhor é o líder do movimento?
Não, mas como iniciamos o processo e tivemos a ideia original, temos credibilidade. Há um ‘brainstorm’ global permanente acontecendo e a Adbusters faz parte dele. Uma das coisas maravilhosas, misteriosas e mágicas desse movimento é que ele nasceu sem liderança, sem demandas. Mas, como você sabe, sempre há líderes. Eles podem não se considerar líderes, mas no Zuccotti Park sempre havia alguém responsável pela área de mídia, outros encarregados da cozinha e trabalhando para que todos comessem bem. Os seres humanos por natureza têm os seus líderes. Por isso o movimento é complexo, um tipo de dança entre não ter líderes mas ter líderes, não ter demandas mas ainda assim ter demandas

É como o anarquismo?
Sim, é como o anarquismo. Você nunca sabe para onde está indo. É louco, muda todos os dias, mas há um tipo de liberdade, de espontaneidade. É como tocar jazz, como se todos os ocupantes fossem músicos que tocam uma música diferente a cada dia. Algumas vezes cantamos juntos e outras, separados. Improvisação é o nome do jogo e é por isso que o movimento tem sido um incrível sucesso ao lançar uma coalizão primeiro nos EUA e depois em outros países.

Qual sua avaliação do governo do presidente Barack Obama?
Todos acreditamos em Obama e na visão que ele apresentava. Mas assim que assumiu o poder ele começou a recuar em todas as decisões importantes que precisavam ser tomadas, como a questão dos presos em Guantánamo, a regulamentação do mercado financeiro e mesmo em relação à guerra no Afeganistão. Obama sempre ficou em cima do muro e não mostrou a ousadia que parecia ter. Ele deve ser reeleito, mas sem o apoio entusiasmado dos jovens americanos. E também porque os candidatos republicanos não têm carisma, visão e parecem um bando de perdedores.

Adbusters pretende apoiar Obama, como na eleição anterior?
Nós o apoiamos no passado. Ficamos tão impressionados com a visão dele sobre a direção que os EUA deveriam seguir, da política externa, mas estamos desiludidos. Este ano lutaremos pela criação de um terceiro partido nos EUA. Por muito tempo as opções políticas no país eram a Pepsi-Cola ou a Coca-Cola, os Republicanos ou os Democratas. As garrafas parecem diferentes, mas o conteúdo e o sabor são parecidos. A discussão sobre a plataforma do partido começará na Internet e se conseguirmos alguns milhões de pessoas para apoiar o novo partido faremos uma convenção. Não há qualquer chance de vencermos as próximas eleições, mas acho que podemos fazer o papel do desmancha-prazer e, em quatro ou cinco anos, teríamos possibilidades reais de nos tornarmos uma nova e poderosa voz política nos EUA.

Seria um partido de esquerda?
Não será necessariamente de esquerda porque a linha tênue que separa a esquerda da direita está em desordem há algum tempo. O fato é que tanto simpatizantes do Occupy Wall Street como do Tea Party estão desiludidos com o rumo dos EUA. De certa maneira, emocionalmente não há grande diferença entre o Tea Party e o pessoal do Occupy Wall Street. É claro que o pessoal do Tea Party, a direita política, odeia o governo e quer derrubá-lo. E nós não nos preocupamos com o governo, desde que seja eficiente, mas odiamos as corporações. Por isso acredito na possibilidade deste terceiro partido ser um estranho híbrido, unindo pessoas da esquerda e da direita.

Como vocês pretendem financiar o novo partido?
Há um grupo de pessoas tentando lançar um partido na Internet que conseguiu levantar alguns milhões de dólares com pessoas que acham excelente a ideia de um terceiro partido. Foi o que aconteceu com Obama. Ele surpreendeu todo mundo quando foi eleito ao conseguir doações de baixo valor de um grande número de pessoas. É possível para os jovens americanos enviar 25 dólares aqui, 50 dólares ali e com isso levantarmos milhões de dólares para realizar uma convenção. Também podemos conseguir milhões de dólares de alguns gatos ricos e gordos.

Atacar as instituições financeiras não é demogagia? Os bancos não são importantes?
A economia global e o atual paradigma econômico, neoliberal e neoclássico, estão totalmente no abismo. Temos uma economia global em que algo entre 1 trilhão e 3 trilhões de dólares são negociados diariamente em derivativos, swaps e todo tipo de instrumentos financeiros. Esse valor é 50 vezes maior do que as transações comerciais que significam alguma coisa para a economia real, para as pessoas de verdade, para os empregos de verdade. As pessoas que trabalham no mercado financeiro criaram um espécie de cassino global. São pessoas que colocam dinheiro aqui e dez minutos depois o transferem para outro lugar. 90% da economia mundial refere-se a fazer dinheiro em cima de dinheiro ad nauseum, sem nada real. Por isso há um sentimento muito forte no Occupy Wall Street de que esse cassino global precisa ser desmontado.

O problema então é o modelo, e não que o senhor seja contra os bancos
Não somos contra os bancos. Bancos são bancos, sempre estiveram e sempre estarão na praça. É claro que precisamos dos bancos, mas não precisamos que os bancos se tornem parte do cassino global. Precisamos de bancos que peguem dinheiro de quem tem dinheiro e o empreste para as pessoas comprarem uma casa ou começarem um negócio. Não precisamos que os bancos comecem a operar derivativos, swaps e nem que façam parte desse cassino global. Os bancos têm um papel que no momento está totalmente distorcido. Por isso os Estados Unidos estão em declínio. Por muitos anos pensou-se que poderíamos mandar nossas fábricas para a China, Indonésia e várias partes do mundo e, com a mão no mouse, apostar dinheiro no mercado financeiro à vontade. Só que agora começam a descobrir que isso não é uma fundação muito sólida para uma economia vibrante.

Mas e as pessoas que se beneficiaram do crédito fácil e irresponsável oferecido pelos bancos? Elas não têm sua parcela de culpa, ao tomar empréstimos que não tinham condições de pagar?
A única forma de a economia crescer num período em que os EUA mandavam suas fábricas para a China, Índia e Indonésia era apostar no mercado financeiro. Por isso os bancos estavam desesperados para emprestar para qualquer pessoa, inclusive desempregados. Gente sem condições de tomar empréstimos altos estavam recebendo empréstimos altos. Foi uma espécie de disfunção dentro do sistema americano, um problema cultural. De repente a cultura americana está ficando rota e eu responsabilizo algumas pessoas que tomaram aqueles empréstimos tanto quanto responsabilizo os bancos e o sistema financeiro. Eles são imorais.

O que leva alguém que nasceu na Estônia, viveu na Austrália, Japão e se radicou no Canadá a fazer política nos Estados Unidos?
Viajei muito quando tinha 20 e poucos anos. Fui à Índia, Afeganistão, Panamá e, para mim, o mundo é o mundo. Tudo está conectado e pude ver como as pessoas em alguns dos países mais pobres do mundo estavam sofrendo e levando uma vida terrível por causa da forma como o primeiro mundo tratava o terceiro mundo. Todos vivemos no mesmo mundo, e o que acontece com o Goldman Sachs ou o que algumas pessoas fazem em Wall Street pode me fazer sofrer aqui no Canadá, podem te fazer sofrer no Brasil, na Índia. Vivemos num mundo globalizado e temos que nos acostumar a isso. Não há nada estranho nem engraçado sobre uma pessoa que nasceu na Estônia e vive no Canadá lutar por um sistema diferente nos Estados Unidos.

Qual é o principal desafio para o movimento hoje?
Agora temos que saltar sobre o cadáver da velha esquerda política. A nova esquerda, formada por jovens liderados pela cultura da Internet, fez algo mágico acontecer e saltou sobre o cadáver da velha esquerda. O grande desafio agora é dos jovens de esquerda de todo o mundo, que precisam criar uma rede de contatos, fazer ‘brainstorms’ e descobrir se terão a coragem, a energia, as ideias e os programas para promover uma profunda transformação no capitalismo global. A esquerda terá a coragem, o poder e a resiliência para finalmente quebrar com esses terríveis 30 anos em que nos tornamos um bando de pessoas que choram, reclamam, apontam culpados, pessoas totalmente inefetivas que não fizeram coisa alguma? Esse é o grande desafio.

O senhor tem medo de ser preso?
Não.

Não acha que isso pode acontecer? Ser processado?
Bom, não sei. Moro no Canadá e tenho que ir aos Estados Unidos. Da próxima vez que eu cruzar a fronteira…diabos…talvez eu seja preso. Da última vez eu disse: ‘OK, na próxima semana tenho que ir a Seattle”. E pensei comigo: ‘Bom, eu provoquei muitos problemas nos EUA e talvez eles tenham me colocado numa lista de terroristas ou de pessoas procuradas pela polícia’. É muito desapontamento, há um regime brutal agora nos EUA, que usam mísseis por controle remoto para matar os próprios cidadãos acusados de terrorismo. Há uma ala da direita muito poderosa nos EUA. É muito assustador, portanto talvez eu pense duas vezes na próxima vez que tenha que ir. Talvez eu toque um tipo especial de jazz (risos).

1º Ciclo de Debates OcupaTeoria: “A produção do comum”. Introdução, agenda, referências.

Introdução

Muitas pessoas quando ouvem a palavra ‘teoria’, logo associam a aulas entediantes e impermeáveis grupos de estudo, eternamente esculpindo as suas ideologias de mármore. Teoria, de novo? eu quero é ocupar. Mas nem toda teoria é automaticamente academicista, como sugere a nossa desilusão. A teoria também pode ser revolucionária, pode ser desobediência civil, pode se acoplar e ser acoplada aos movimentos. Não se trata de começar a pensar sobre a OcupaRio; a OcupaRio já foi e já é, também, um campo de pensamento vivo. A teoria pode derrubar os muros da prática e a prática, os da teoria. Seja quando as teorias se isolam em compartimentos e vem uma prática derrubando muros. Seja quando as práticas estão desconectadas, e vem uma teoria e articula um campo comum. Também existe o saber vivenciado e vivente que circula, que transpira dos encontros e relações entre as pessoas na praça.  Já estamos pensando a toda hora sobre a OcupaRio, porque ela nos atravessa.

O primeiro eixo temático, de vários que virão, para estruturar os três primeiros encontros de debates, ficou estabelecido como a produção do comum.

O comum aqui, — vale apresentar um ponto de partida, — como um campo de atuação que não é privado, mas também não é estatal. Não busca disputar diretamente o estado ou ficar esperando que as reivindicações sejam atendidas. O comum qualifica um campo afirmativo e constitutinte. O comum não é o “público” da Guarda Municipal, do Judiciário ou dos órgãos e códigos do estado. O comum é um espaço produtivo, um espaço social atravessado por fluxos, uma convergência de redes e desejos. É uma condensação de diferenças que, sem se fundir num coletivo ou identidade fixa, geram, criam, elaboram. Produzem não para que sejamos idênticos, com as mesmas pautas e formas de vida, mas para que sejamos produtivos, para fomentar a riqueza da multiplicidade que somos. Produtivos na nossa diferença.

Ocupar intensivamemte o espaço e deixar-se preencher pelos fluxos e redes, sem perder de vista a luta política, isso é constituir o comum. Trata-se de produzir a horizontalidade e a liberdade como pontos de chegada, como o resultado das interações sociais, e não como algum ponto de partida, uma vez que a sociedade é, em princípio, cheia de assimetrias e desigualdades, ou seja, ela é toda verticalizada. Daí que a palavra transversalidade também seja boa, em relação a horizontalidade. No comum, se faz uma mutação que não é guiada por algum ecletismo, mas pela produtividade do conjunto, pela hibridação que potencializa, pelo fortalecimento de um sujeito político transformador. O comum como modalidade de convivência, construção e produção, uma ética e uma estética das mobilizações. O comum que não é simplesmente o que teríamos em comum, o mínimo denominador comum, mas, muitas vezes o que não temos em comum, e precisamente porque não temos em comum, o nosso encontro pode ser tão produtivo e tão potente. Não tendo A e B em comum, mesmo assim A e B produzem o comum, uma terceira dimensão, um C que não estava em A nem em B, e que só poderia existir com o bom encontro entre A e B.

O primeiro ciclo (dentre vários que virão, ressalte-se) se vai estruturar em três encontros,sob a perspectiva do comum, isto é, além do privado/empresarial/individual e do público/estatal/partidário. Esses três encontros atravessam três recortes em que o comum permite não só problematizar e criticar os modelos e formas postas. Mas, também e sobretudo, formular de dentro das mobilizações uma alternativa, ou ao menos esboçá-la, fazer circular os saberes vivos, articular e ser articulado pela multidão de desejos e diferenças. E sempre do ponto de vista das práticas políticas e sociais engendradas pela OcupaRio, no seu polivalente caráter local e global, sólido e gasoso.

Agenda

Os três assuntos do primeiro ciclo de debates, com caráter introdutório:

1) Semana do 6 de fevereiro, no IFCS (data a confirmar): A REPRESENTAÇÃO. “Não nos representa”. Outras formas de organização, produção e mídia, além da disputa pelo estado, dos partidos, da imprensa convencional.

2) Semana do 27 de fevereiro, no IFCS (data a confirmar): A PROPRIEDADE. “O comum além da propriedade”. Moradia, regularização fundiária, reforma urbana, cultura livre, cultura de resistência, cópia livre, difusão do conhecimento.

3) Semana do 12 de março, no IFCS (data a confirmar): A IDENTIDADE. “Multidão queer”. Lutas minoritárias de índios, mulheres, negros, LGBT. Os pobres constituindo o próprio mundo sem ser erradicados. Antropologia perspectivista e política menor.

4) Semana do 26 de março, na Praça da Cinelândia (data a confirmar): Convocatória de movimentos, lutas e ativistas, culminância do ciclo com dinâmica aberta na praça. (Evento precisa ser amadurecido)

Material preparatório (preliminar)

HARDT, Michael, artigo “O comum do comunismo”, no 4shared (em pdf).

NEGRI, Antonio e GIL, Gilberto. palestra “A constituição do comum”,no youtube.

ROLNIK, Suely, entrevista por Pedro Britto, ao projeto Corpocidade.

MATEI, Ugo, artigo “Por uma Constituição baseada nos bens comuns”, do Le Monde Diplô, no OcupaTeoria.

MATEI, Ugo, entrevista “A lei do comum: o vírus mutante das enclosures”, no IHU.

GUERÓN, Rodrigo, artigo “Sobre Caetano, Cotas e Passeatas”, à revista Global 13.

CORSINI, Leonora. artigo “Identidade pra quê?”, à revista Global 7 (ir à PÁG. 24)

COCCO, Giuseppe, artigo “A nova (des)ordem do trabalho”, à revista Trópico.

PRECIADO, Beatriz, artigo “Multidões queer: notas para uma política dos anormais”, em Estudos Feministas

Livros completos:

NEGRI, Antonio e HARDT, Negri. Commonwealth [trad. “Comum”], versão em espanhol no 4shared (pdf).

[principalmente pág. 3-39 e 170-198]

VEGA, Oscar Camacho. Errancias: aperturas para vivir bien (Da experiência do comum indigenista na Bolívia e seus modos de viver bem), no 4shared (pdf).

Occupy: agora o quê?

Por Carlos Delclós e Raimundo Viejo | Fonte: excerto traduzido de Adbusters

Insight de dois indignados:

(…) Tendo chegado aqui, a pergunta óbvia passa a ser: “Agora o quê?” Claro que devemos continuar protestando juntos, especialmente se o fizermos regularmente e massivamente, favorecendo uma crítica geral do sistema sobre causas particulares. E numa escala menor, que lutas específicas continuem a tomar as ruas não deixa de ser desejável. Mas, é fundamentalmente importante que essas lutas não estejam demasiado desligadas umas das outras ou do movimento mais geral; e que elas se desdobrem além de seus próprios espaços (hospitais, escolas, fábricas, escritórios e assim por diante) e dentro dos espaços metropolitanos mais amplos, onde se exerce a dominação cleptocrática. Esses processos paralelos servem para manter vivas as questões que guiam o movimento e, em consequência, se adaptam às situações sempre em mutação nas quais eles operam. Ainda assim, a questão sobre quais alternativas nós podemos apresentar permanece.

A conquista do poder político, particularmente em democracias liberais, não é a tarefa mais importante para a mudança social. A mudança política tende a ocorrer uma vez as mudanças sociais já tendo acontecido. Então, se o que desejamos é mudar as relações sociais existentes e as desigualdades, faz pouco sentido priorizar uma mudança do poder político, na esperança que a mudança social venha a ser implantada de cima pra baixo. Em vez disso, o primeiro desafio, como John Holloway uma vez disse, é “mudar o mundo sem tomar o poder“, construir e fortalecer as instituições alternativas dos comuns [commons].

Por instituições, é claro, não estamos nos referindo às instituições de um regime político, como parlamentos, governos e coisas do gênero. Nem estamos nos referindo àquelas que podem estar entre o regime e o movimento, como os partidos políticos, os sindicatos e outras organizações semelhantes. Nós estamos nos referindo a instituições que provejam as fundações para o próprio movimento, e que só podem ser definidas por sua própria autonomia: centros sociais, coletivos militantes, mídia alternativa, consórcios populares de crédito e cooperativas. Instituições como essas constituem nada mais nada menos que os espaços materiais em que podemos articular os valores, práticas sociais e formas de vida, como base para uma atmosfera de mudança social irradiada por todo o mundo.

(…)

Atitudes a evitar, por Ashley Sanders

Por Ashley Sanders | Fonte: excerto traduzido do artigo completo em Peaceful Uprising

Atitudes a evitar:

Anarquismo Estético / Dane-se o Plano. Sou totalmente a favor de movimentos democráticos de massa, não-hierárquicos. Sou a favor de derrubar o sistema. Quero trabalhar de uma posição de independência e autonomia em relação a ele. Mas tenho percebido em muitas ocupações um espírito nocivo de Anarquismo Estético.

Quando falo estético, não estou falando da aparência. Estou falando da imagem. Estou falando quando a forma de uma idéia substitui a sua substância, ou quando os rituais de crença substituem a razão de acreditar. Atitudes estéticas prevalecem quando nossa motivação não é mudar o poder, mas estar com razão, estar na moda ou ser descolado — um perfeito -ismo. E desde que crenças estéticas têm mais a ver com o reconhecimento do que com a vitória, crentes estéticos despendem muito pouco tempo pensando no que significa vencer e o que isso requer. Cada movimento tem a sua estética (pense nos hippies), e não há problema nisso a menos que comprometa a razão inteira de ser do movimento, que é vencer. Porque para vencer, você precisa de um plano, e para planejar você precisa considerar um espectro de idéias, que desafiem a sabedoria convencional até serem efetivadas.

Os radicais dizem: 6.000 pessoas perderam suas casas para os bancos hoje. Nós as ajudamos? O que precisaria para as ajudarmos? E então partir daí, propiciando que a necessidade dite a ação. Anarquistas estéticos, no entanto, estão contentes em esperar a boa-nova vinda de algum Monte Sinai, que diga: “Se Nova Iorque faz, nós fazemos também”, ou então “assim disse o Cara, vestido de preto-punk-rock.” Eles são herdeiros de uma cultura de idéias recepcionada — uma subcultura, mas superficial de todo modo. Seus objetivos são a pureza e o conformismo contracultural, uma forma estranha de fundamentalismo esquerdista.

Uma das piores formas de anarquismo estético confunde ter um plano com ser o Cara. Anarquistas estéticos nivelam todas as estruturas e estratégias com o fascismo, definindo ações “genuínas” como espontâneas e aleatórias. Da mesma maneira, eles vêem radicalismo em termos de ações reconhecidas em vez de métodos. Mas essa Atitude Torre de Marfim não leva a lugar algum. Então que fique claro. Ter um plano não significa ser o Cara. Não é vender o movimento. Não é fascismo. Ter um plano significa decidir como engajar-se frente ao poder, e como fazer o poder engajar-se com você. Para avançar, vamos fazer menos Dane-se o Plano e mais Dane-se o Cara.

Vamos decidir se queremos criar um plano para chegar lá, escolhendo ações que caibam no problema, e não que caibam na moda. Até aqui o nosso movimento é um substantivo radical; vamos pensar estratégias para torná-lo também um verbo radical.

(…)

Ashley Sanders, 27, é uma ativista norte-americana que participa do movimento Occupy. Mais artigos dela, aqui.