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CHAMADO PARA O 12M E PARA MANIFESTOS COLABORATIVOS – OCUPARIO

CHAMADO PARA O 12M E PARA MANIFESTOS COLABORATIVOS – OCUPARIO

Em 15 de outubro do ano passado, cerca de 150 pessoas se encontraram na praça da Cinelândia e tomaram a palavra. Haviam respondido ao chamado global por ação direta e democracia real, diante de governos cada vez mais íntimos e submissos às elites dominantes do sistema financeiro, das multinacionais, das grandes redes empresariais, do agronegócio e da indústria das comunicações. No dia 22 de outubro, mais de 500 ocuparam o território. Levantaram-se as barracas e ali ficaram, nas alegrias e nas dificuldades, por mais de 40 dias e noites. Decidiram não mais pedir permissão para fazer política. Decidiram não sentir vergonha de acreditar e trabalhar por um mundo melhor, além das amarras e limites da representação, da identidade e da propriedade. Resolveram não ficar mais esperando, como se a solução caísse do céu ou fosse anunciada por alguma utopia do passado. E, no 12 de Maio próximo, iremos reocupar novos espaços, sejam de terra, asfalto ou digitais. Os caminhos estão abertos e queremos abrir ainda mais os espaços para exercermos a nossa liberdade de constituir os nossos próprios caminhos comuns. Para construirmos um mundo sem os muros, cercamentos e exclusões, impostos para reproduzir os poderes econômicos, financeiros, midiáticos e coercitivos dos poucos sobre os muitos. Recusamos vender os nossos sonhos, desejos e trabalho cooperativo a empresas, marcas e fetiches, e não nos rendemos à sociedade cada vez mais vigilantista, que criminaliza os movimentos, inclusive na internet. Este chamado é aos 99% que, com o próprio suor e trabalho, sustentam a absurda acumulação de riqueza por parte do 1%. É um chamado dos que não se esquecem e sempre voltam para cobrar e construir as transformações aqui e agora.   

Em 2011, milhares de pessoas transitaram no OcupaRio, envolvendo-se em muitas atividades, grupos de trabalho, reuniões, dinâmicas, performances, mídias alternativas, textos, sessões de cinema, de ioga, de pedagogia do oprimido. Na acampada da Cinelândia, os muitos construíram, com indignação e ternura, um novo espaço e um novo tempo, para os sonhos e desejos de uma geração que não se resigna. Declararam-se, logo nos primeiros dias, anticapitalistas e críticos da esfera representativa tradicional. O OcupaRio preencheu-se também dos fluxos da cidade, foi atravessado pela violência cotidiana que as pessoas em situação de rua e os pobres em geral enfrentam . A acampada lidou com as neuroses, paranóias e crises provocadas por políticas públicas repressoras, ineficazes e desiguais. Os ocupantes da Cinelândia investiram as energias, as experiências, as revoltas, as teorias e os poemas; elas somaram-se umas as outras e constituíram, entre si e para todos, um terreno comum de experiências inovadoras.

O OcupaRio foi removido no começo de dezembro, numa madrugada de sábado para domingo. Sem apresentar qualquer decisão judicial, os ocupantes foram covardemente expulsos por uma operação surpresa, conjunta entre choque de ordem (Prefeitura) e polícia militar (Governo do Estado). Vários homens e mulheres foram recolhidos compulsoriamente a abrigos distantes, após o constrangimento de passar por diferentes delegacias. A remoção do OcupaRio não é novidade. No Rio de Janeiro, sucessivas comunidades pobres têm sido removidas para longe, sob o pretexto das obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Esses megaventos têm justificado um estado de exceção contra todos que não se enquadram na concepção de metrópole “globalizada” e elitizada que já está sendo vendida a peso de ouro. Esse modelo de desenvolvimento urbano tem significado uma supervalorização imobiliária, ao mesmo tempo que exclui e expropria os verdadeiros construtores (físicos e simbólicos) da metrópole. Ocupações urbanas têm sofrido no dia a dia o completo desrespeito do direito à moradia e à dignidade, mesmo quando se trata de imóveis desertos há anos (e são milhares), cuja única serventia consiste na especulação que propiciam.

O modelo de desenvolvimento predominante no Brasil também vem destruindo experiências bem sucedidas de viver alternativamente ao sistema, nas comunidades autogestionárias, nos quilombos contemporãneos, nas aldeias ribeirinhas do Xingu e da Amazônia em geral. Também se destroem e, sobretudo, exploram experiências de trabalho informal, dos camelôs, do remix na internet. A remoção da comunidade de Pinheirinho (em São Paulo), que produzia e resistia há sete anos com autonomia, é a culminância dessa política autoritária e desigual. Aqui no Rio é a remoção da Vila Autódromo que se prepara. Em nome da propriedade privada (interesse individual) ou da propriedade pública (interesse geral), o poder de sempre não mede esforços quando está em jogo a manutenção da identidade majoritária e da lógica de guerra contra os pobres que a história do Brasil é tão pródiga.

 Em 2012, dizem que o Brasil já não é mais o país do futuro, mas do presente. Mas que presente é esse? A publicidade dos governos, reproduzida por uma grande imprensa acrítica, não cansa de repetir que vive o melhor momento de sua história. O crescimento econômico aliado à confiança nos “mercados” inspira o orgulho patriótico das elites. Jamais os lucros estiveram tão altos, a especulação imobiliária inflacionou tanto, os bancos faturaram tantos trilhões de reais. Proliferam os oligopólios (públicos ou privados), grupos multinacionais, fundos e mesmo famílias monopolizam enormes fatias dos negócios: petróleo, sistema bancário, redes de supermercados, conglomerados midiáticos, indústrias de cimento, aço, plástico, culturais e de entretenimento… Não importa, quem continua a governar o Brasil são esses componentes da classe dominante, que não hesitam em utilizar as forças do Estado para assegurar a sua dominação política, social, econômica e cultural. Além disso, o crescimento econômico tem sido encarado pelos governantes como meramente quantitativo, importando apenas os números e não uma melhoria qualitativa na vida das pessoas, especialmente daquelas que suportam os custos sociais e ambientais decorrentes. Se houve melhorias na vida da população, ainda é muito pouco em relação à riqueza que vem sendo produzida e distribuída de modo concentrado, desigual e expropriatório. Por debaixo dos números, ufanismos e reportagens acríticas, a violência do Estado e do mercado se dissemina em operações policiais, na militarização do território, na remoção de comunidades, na expulsão de indígenas e quilombolas, e no racismo, machismo e homofobia institucionalizados na sociedade brasileira em todos os seus setores. Esse Brasil desenvolvimentista e que busca ser um país rico não é um Brasil que acaba com a pobreza, é na verdade um Brasil que está acabando com os pobres, os 99%.

Por tudo isso, não acreditamos que a crise esteja distante. A crise que vivemos é diferente, mas é crise. É a crise da desigualdade, da miséria, da opressão de gênero, raça, classe e sexualidade, do desenvolvimentismo. Atrás do muro impermeável da propaganda oficial, uma pessoa sofre os efeitos da crise, e é acuada, e sente medo e se sente sozinha. Estamos com todas essas pessoas! E chamamos para participarem, a se mobilizarem conjuntamente, quando o medo se converte em desejo, a tristeza em alegria, a solidão na organização da revolta. E muitas se revoltam, se organizam como precárias, em Pinheirinho, no Xingu, em Jirau, em Petrolina, em Belo Monte, na internet, junto aos sem terra, sem teto, sem mídia, aos hackers e anonymous, aos sem perspectiva que não vender todo o seu tempo por subempregos e bicos, sob o comando supremo dos donos da propriedade, dos lucros e das rendas “nacionais”. Se os governos vendem o Brasil como o país do futuro, precisamos afirmar que o futuro que queremos é outro. Essas pessoas que não se resignam e não se adaptam ao novo Brasil da TV, crescido porém desigual, centralizado, discriminatório, submetido por elites políticas e financeiras. Essa democracia não é real, em nenhum aspecto imaginável: como processo político, como distribuição da riqueza, como protagonismo cultural e midiático onde cada um e cada agremiação possui condições para uma plena voz ativa. Não é democracia real do ponto de vista das mulheres, dos LGBTT, dos negros, índios, quilombolas, e de todos os pobres em geral, na metrópole e no campo, no centro ou na periferia. A condição de indignação que atravessa o mundo também nos atravessa.

O tipo de política extremamente hierárquica, onde poucos decidem por muitos, e quase sempre em benefício próprio, faz grandes parcelas da população associarem o termo “política” a sentimentos de tédio e desesperança. São formas de se fazer política que não representam a pluralidade das sociedades. Não representam seus desejos e visões de mundo, construídas no dia-a-dia, e, por isso, não representam adequadamente nem mesmo suas demandas. Contra esse tipo de política reacionária, acreditamos que as práticas que dão rumos às sociedades devam ser uma composição de múltiplas ideias, propostas, programas, teorias e demandas…

No dia 12 de Maio de 2012, convidamos você a se juntar ao movimento global e local do Occupy, que se propõe a trabalhar, cooperar e lutar por uma alternativa política ao sistema vigente e suas formas de representação política, desigualdade social, opressão de gênero, sexual e racial, e violência estatal generalizada contra os pobres. Um movimento diversificado, aberto, constituinte, de organização transversal, flexível e cooperativo, articulado com outras lutas e movimentos da cidade, composto de pessoas indignadas, descontentes, revoltadas ou simplesmente desejantes de outro mundo para se viver mais plenamente, um mundo mais igualitário, libertário e conectado.

A diferença entre o possível e o impossível está na coragem da tentativa. Ninguém vai nos repreender por não termos tentado. Porque vamos! Em frente! Estamos nos levantando e falando e se organizando, sem medo da represália, dos reacionários, porque podemos e queremos, porque o nosso tempo histórico é agora e queremos vivê-lo intensamente, queremos fazer acontecer, como muitos no passado fizeram com a coragem e o amor das revoluções, e conquistaram os direitos que desfrutamos, e agora é preciso ir mais além e continuar caminhando. Não estamos satisfeitos com o que está acontecendo com o mundo. Temos idéias diferentes, pluralidade de pensamento, e estamos abertos a quaisquer opiniões. No dia 12 de maio, é só chegar! A casa caiu, levanta a barraca e faz um barraco!

Ocupa Teoria

Rio de Janeiro, 16 de Março de 2012.

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Foto: Rodrigo Torres (OcupaRio)

Esse texto estará aberto para contribuições durante os próximos 15 dias. Para acessá-lo basta entrar em http://ocupario.org/wiki/12m/ e começar a editar. No dia 31 de março  ele será relançado contendo as contribuições realizadas, podendo ser  assim um Manifesto Colaborativo do Ocupa Rio para o 12M. Esse chamado é apenas um chamado entre os muitos, os muitos que já existem e que desejamos que venham a aparecer. Por isso esse chamado não é visto como sendo um ponto de chegada ou de partida e sim como mais uma ação entre as muitas que estão sendo realizadas e que serão realizadas nos próximos tempos. Por isso para além de um chamado para um Manifesto Colaborativo do Ocupa Rio para o 12M, estamos fazendo um chamado para muitos manifestos. Esse é um chamado para que a multiplicidade de visões dos muitos se constituam enquanto muitas. Façamos chamados, façamos manifestos e façamos circular a coragem de nossas perspectivas.

Nos vemos nas  Ruas sejam de asfalto ou de terra!